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Educação e negócio
Não sei como é para a maioria das pessoas, quando param e pensam numa instituição de ensino; desde a escola até a Universidade, o meu sentimento sempre foi o de um grande respeito; algo como um campo sagrado do saber. Para mim, até hoje, não mudou esse pensamento. Mas, por outro lado, não vejo o mesmo por parte de muitos. Muito pelo contrario, vejo que as coisas têm mudado muito, de modo que a educação tem sido cada vez mais, um grande negócio. Na verdade, o ensino tem sido desvalorizado de todas as formas possíveis, a começar pelos maus gestores, por alunos e pela sociedade, de forma geral. Prá começo de conversa, não devia ser uma obrigação, mas um prazer, estudar, ensinar e aprender. Na conta da obrigação, tudo vira um grande problema, de modo que o que mais é deixado de lado é o principal, ou seja, o conhecimento. Quisera tudo fosse diferente e que alunos e professores se reunissem com o maior prazer para estudar, discutir as diferentes idéias e teorias, contextualizá-las, de forma a extrair mais conhecimentos e gerar novas atitudes em prol da sociedade. É lamentável que não seja assim. Quando estudava, na escola, por exemplo, embora não me dedicasse tanto, o lugar do conhecimento, a partir dos professores e dos livros, era motivo de orgulho; e isso carrego até hoje. Quando comecei então a atuar como professor, vi que a coisa era muito diferente do que pensava, a começar dos diretores até os estudantes. A primeira escola que lecionei foi um grande aprendizado, apesar de que foi decepcionante ver como a direção tratava o ensino e a nós professores; lembro de uma cena que não me saiu da cabeça até hoje, ao ver a diretora da escola com uma bandeja de bolinhos e de suco para levar a uma equipe de avaliadores ligados a secretaria da educação do estado. O que me indignou não foi o fato de se ter bolinhos e sucos, mas foi perceber a forma pejorativa e mercantilista da diretora, a qual deixava muito clara a sua percepção de educação como um negócio. Ou seja, não interessava a discussão apresentada pelos avaliadores, mas em como tê-los a seu favor para aprovar a escola e seus interesses; é lamentável. Hoje vejo que não tem sido diferente, quando se refere ao ensino universitário, pois, quando se fala de avaliação, para autorizar ou reconhecer cursos junto ao MEC, cansei de ver comportamentos e mentiras deslavadas com o intuito de convencer os avaliadores a aprovarem os cursos. Vejo que a educação virou um grande negócio, cujo interesse central é o lucro, em detrimento do conhecimento. Já vi determinadas faculdades que contratavam professores mestres e doutores somente para cumprir a cota exigida pelo Mec, mas, quando os avaliadores iam embora, logo a maioria dos professores contratados era demitida; outro disparate é a instituição usar nosso currículo, inclusive nos chamar para reunião para autorização de cursos, depois, quando o curso é aprovado, outro professor é chamado para dar aulas. Isso é vergonhoso. Isso é só uma pequena demonstração da educação como um negócio. É claro que nem todos são assim, pois sei de pessoas maravilhosas (professores, gestores e alunos) que acreditam no que fazem e fazem muito bem. Mas, com certeza, muita coisa precisa mudar, especialmente a postura de grande parte de gestores, de professores e de alunos.
Escrito por João Nunes da Silva às 16h38
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MUNDO IMPESSOAL
Você lembra do romance “O Processo”, de Franz Kafka? A história toda se passa mostrando um indivíduo que foi condenado sem saber por que, e ele chega até a assumir a culpa, só não sabe de que. Essa ficção tem tudo a ver com o mundo moderno, pois vivemos numa sociedade a qual a cada dia se torna mais complexa, impessoal e, portanto, desumana. Podemos dizer até que nos perdemos no turbilhão de afazeres de processos, de organizações, de atividades, entre outras coisas. Mas, o pior de tudo isso é que não temos nem mesmo a quem reclamar, pois, por exemplo, quando precisamos de um serviço, tipo: telefone, internet, ou até mesmo comprar alguma coisa por meio de telefone, não temos com quem conversar de fato, a não ser escutar gravações infindas para sermos atendido por um determinado setor. O pior de tudo é quando precisamos reclamar e que não há uma pessoa para reclamar, a não ser departamentos, cujos indivíduos se comportam como máquinas, isto é: frios, técnicos, burocráticos, puramente formais. Dessa forma, por mais indignados que nos encontremos, não adianta chorar, principalmente a espera de uma compreensão por parte de quem está do outro lado da linha, uma vez que os atendentes são pagos simplesmente para se comportarem como máquinas, de modo que falam conosco como se estivessem fazendo mais uma gravação. Esses dias passei apuros à espera de uma solução para a minha internet que não funcionava, e que, aliás, ainda não funciona bem; é que precisei reclamar para arrumar e, durante dezenas de tentativas, a única resposta concreta que recebi é que logo estaria resolvido o problema, pois, uma equipe de técnico estava cuidando do assunto. Não adiantou nada, nem mesmo apelar para a Ouvidoria; até que resolvi reclamar junto ao Procon; já é a segunda vez que faço isso. O Caso só é resolvido mesmo dessa forma; aliás, parabenizo a equipe do Procon pelo belo trabalho que realizam. Em geral, o Serviço de Apoio ao Consumidor das diversas empresas só tem servido para tornar as coisas mais difíceis ainda, o que é uma pena; daí, o jeito é apelar para buscar outras saídas, como a Procuradoria do Consumidor. Às vezes me pergunto que tipo de sociedade construímos, pois, cada vez mais as relações sociais são fragmentadas, frias, calculistas, mesquinhas, entre outras mazelas que tornam a nossa vida um verdadeiro arremedo, uma loucura, à ponto de não termos a quem reclamar, pois, tudo é formalizado, impessoalizado, ou seja, sem vida. Diante dessa cruel realidade, se ao menos tivéssemos serviços de qualidade, talvez tivéssemos menos do que reclamar, embora nos tornemos meros objetos de um cruel sistema; nos tornamos em insetos qualquer, um escaravelho, como no outro livro de Kafka, isso mesmo, A metamorfose, em que um jovem acorda e se dá conta que virou um enorme inseto e, logo em seguida, é assassinado pelo próprio pai a chineladas, como fazemos com as baratas que nos aparecem. Nosso mundo é impessoal, a vida é impessoal, nossas histórias servem mais quando se tornam objetos de consumo, não importa a verdadeira razão. Tudo vira consumo, o prazer está no consumo, a ilusão de liberdade também.
Escrito por João Nunes da Silva às 01h33
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O velho Taía
Há coisas e pessoas na vida que merecem o maior respeito e consideração, isto por vários motivos; um deles, é o aprendizado que recebemos gratuitamente. Fiz essa pequena introdução para falar do velho Taía, digo velho no sentido mais puro e terno da palavra; sei que para alguns, chamar uma pessoa de velha é imperdoável; mas não é dessa forma que vejo, pois, para falar numa pessoa que amamos, e que é idosa, não cabe aqui falar o idoso fulano de tal. Assim, tendo justificado o título do texto, quero dizer que o Velho Taía foi um dos grandes mestres da minha vida, do qual só tenho admiração e gratidão. Seu nome mesmo era Isaías, mas os sobrinhos só o chamavam de Taía, e eu me acostumei a chamá-lo assim. Ele deixou essa vida com mais ou menos 80 anos, digo mais ou menos porque ninguém sabia mesmo a sua idade, nem mesmo Seu Joaquim, seu irmão. ´ Essa história da idade já nos dá motivo para curiosidades, é que Taía sabia de tanta coisa, tinha tantas histórias e estórias que nos contava que, só mesmo uma pessoa que tenha vivido tanto era capaz de nos encher de alegria para escutá-lo. Muitas vezes, sentado na calçada da casa ele nos presenteava com histórias do tempo em que morou no Rio de Janeiro e que trabalhava para algumas pessoas que ele considerava muito, pois faziam parte da Elite política da cidade. Ele se orgulhava bastante de ter conhecido Brizola e outros políticos da época. Mas o que nos encantava mesmo era quando Taía falava de coisas relacionadas à religião; ele demonstrava muita fé e seguia piamente o catolicismo. Falava, por exemplo de um homem que conheceu que curava as pessoas simplesmente com reza. Um dia me falou de um homem que botava “olho gordo em tudo”, mas quando encontrou pela frente esse rezador, não teve outra, seu mau olhado desapareceu, pelo menos não fazia mais efeito para as pessoas que ele punha os olhos. Era devoto do Padre Cícero do Juazeiro, e ai de quem falasse mal de quem ele considerava santo. Falava das curas que o Padre Cícero realizou e das ajudas que esse santo já tinha dado a tantas pessoas, por isso que, para Taía, Padre Cícero era Santo mesmo e não tinha quem o contrariasse. Mas ele falava também de outras coisas, como estórias de Troncoso, das peripécias que já viu na vida, além de gostar muito de trabalhar, principalmente quando ele plantava o que gostava e do jeito que gostava. Isso mesmo, o Velho Taía era chegado a uma roça, de modo que até mesmo o quintal de sua casa não deixava de ter alguma coisa plantada: milho, feijão, jerimum, chuchu; até mesmo abacaxi e fumo já fizeram parte de sua plantação, ali mesmo, no oitão da sua casa, como costumava falar. À tardinha, Taía gostava de dá um cochilo na calçada, ao lado da casa, pois, era uma sombra gostosa que fazia prá quem quisesse dormir e sonhar, ali mesmo, naquele cantinho da casa. Quando ele saia de casa era prá encontrar seus amigos no Calçadão da principal rua do bairro. Ali ele se deleitava com as histórias dos outros colegas, além de contar as suas também;aliás, a maior parte do tempo que ficava no calçadão, era Taía que dava o tom da conversa, de forma que todo mundo o ouvia atentamente. À tarde que ele ficava no Calçadão, era uma verdadeira festa para todos que tinham o prazer de escutar e partilhar as anedotas e estórias do velho Taía. Outra coisa é que ele gostava muito de crianças e elas também demonstravam grande admiração por ele e por suas narrativas.
Escrito por João Nunes da Silva às 10h53
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