A burocracia consiste numa forma de poder, de modo que, por seu intermédio se mantém os sistemas de dominação e de subordinação numa sociedade baseada na racionalidade industrial. Oxalá que a burocracia fosse de fato mais utilizada para prática do bem, de modo que todos pudessem viver com dignidade e sem medo de ser e de expressar suas idéias, angustias , decepções e sonhos.
A sociedade moderna está cada vez mais presa a racionalidade instrumental, a qual se evidencia nas diversas instituições e organizações sociais cujos interesses estão voltados para o prazer imediato, que se traduz na busca pelo lucro, no consumismo e na vulgarização dos valores básicos do ser humano (liberdade, vida, por exemplo).
Igualmente, nega-se o ser humano como sujeito, isto é, em troca do seu mais íntimo ser, de sua subjetividade, tem-se este como objeto de uso e de exploração, o que , por sua vez, se mostra claramente nas relações de trabalho estabelecidas nas diversas instituições e organizações.
É por meio da burocracia que o sistema estabelecido cria suas raízes e se perpetua, o que se dá principalmente pela aplicação de modelos educacionais tradicionais, baseados numa metodologia totalmente voltada para construir nos indivíduos a ilusão de que estão aprendendo de fato algo que contribua para a sua liberdade e para a realização de seus sonhos.
Desde as primeiras fases de vida escolar até a universidade é dado prioridade a uma metodologia da negação do sujeito, especialmente quando o aluno é obrigado cursar disciplinas estritamente técnicas, o que não seria problema se contribuíssem de fato para o conhecimento que chamo verdadeiro, isto é, que possibilite na pessoa a capacidade de refletir, questionar e de criar a partir dos contextos sociais em que possam se encontrar. Tal educação que prioriza a técnica é tipicamente linear, cartesiana e positivista.
É triste quando percebemos em profissionais e estudantes universitários, até mesmo de especialização, mestrados ou doutorados, a incapacidade de refletir sobre determinados temas relacionados à política, a cultura e a sociedade. Vê-se unicamente uma preocupação com o fazer para ganhar, ou seja, para lucrar. Tornou-se lugar comum o uso de técnicas para isso ou para aquilo, o como fazer.
Qualquer tentativa de reflexão é tida como perda de tempo, de modo a não perceberem, por sua vez, que adotam um comportamento programado, vazio e carente de vida própria, o que, conseqüentemente refletem nas relações sociais. Vejo com bastante preocupação como são formados os profissionais, os quais são despejados no mercado sem a menor capacidade para pensar criticamente, problematizar e para buscar soluções em conjunto a partir de discussões à luz da filosofia, da sociologia e da antropologia.
O resultado concreto desta nefasta formação está nas relações de trabalho cada vez mais degradantes, desumanas e impessoais. Isto mesmo, predomina nas organizações empresariais, seja pública ou privada, a impessoalidade, ou melhor dizendo, a falta de vida própria, o que se revela nos comportamentos, especialmente quando impera o silêncio frente a determinadas injustiças, nas fofocas e na briga por algum lugar na hierarquia burocrática.
Diante de tal realidade, é de se perguntar: a quem interessa tal situação? quem se beneficia com essa sociedade impessoal,padronizada e acrítica? Evidentemente que a maioria sai no prejuízo, como se percebe na falta de educação critica e de qualidade, na pobreza cada vez mais escancarada, na corrupção e na busca de favores individuais, nos políticos desacreditados e na ambição pelo lucro e pelo consumo fáceis. Tudo isso não deixa de ser a negação humana.
Tal realidade se mostra ridícula, favorável aos poderosos economicamente, conseqüência concreta daquilo que a ditadura implantou por meio de suas práticas execráveis como as torturas, a censura e a implantação e de modelos tecnicistas de educação e de administração.